Que confusão é essa?
Muita
confusão está sendo gerada na cabeça das pessoas preocupadas com o bem estar da população, pelas notícias
desencontradas, veiculadas nos últimos tempos, sobre as alternativas propostas para descentralização da FEBEM (Fundação Estadual
do Bem- Estar do Menor), nome já
antigo e muito conhecido.
Em nossa cidade,
como em toda região, o assunto tem ocupado os órgãos de comunicação, quase que diariamente, na maioria das vezes, para expor a reação popular
a qualquer iniciativa para equacionar o gravíssimo problema
da criança e do adolescente que cometem ato infracional.
É certo também que, quando se refere à
punição dos atos infracionais praticados por
crianças e adolescentes, a grita geral, tanto da população quanto das próprias
autoridades policiais é contra a situação considerada de “impunidade” (o círculo vicioso
prende/solta) e que vai gerando
consequentemente um assustador aumento do número de infratores, bem como da
gravidade, cada vez maior, dos próprios atos
infracionais.
O resultado mais preocupante e
desesperador para as autoridades é que esta situação potencializa o aumento desmesurado do número de criminosos na
sociedade, pois a cada ano um grupo
de adolescentes cada vez maior, completa a maioridade e passa a integrar o contingente daqueles
que realmente precisam ser punidos pela lei.
Só que não existem presídios
suficientes para a demanda e os que existem não comportam
mais a superlotação atual. Para se ter uma ideia, o estado de São Paulo é o recordista absoluto no número de presos
com cerca de 120 mil detentos, vindo em segundo lugar o
Rio de Janeiro, com menos da metade deste número.
Em nossa cidade,
o CDP (Centro de Detenção Provisória), que tem capacidade para 512 detentos,
está com mais que o dobro deste número, podendo
tal situação resultar
em evento catastrófico a qualquer momento. No Centro
de Ressocialização Carlos Cantarelli estão hoje 124 reeducandos que são presos
condenados em fase de readaptação para a volta à
sociedade.
Quais
os principais motivos
por que este processo está ocorrendo em nossa sociedade? A resposta à esta pergunta
é altamente complexa
e envolve inúmeros
aspectos conjunturais da nossa sociedade atual.
Porém, algumas respostas práticas
que conhecemos bem, nos mostram
o caminho que, infelizmente, não estamos trilhando
e pelo qual outras cidades
já colhem frutos altamente positivos como é o caso de São
Carlos, que após quatro anos de implantação do NAI (Núcleo
de Atendimento Integrado) conseguiu uma diminuição de
80% do número de processos de
adolescentes infratores, com um índice de reincidência de apenas 3%, tendo que
encaminhar à FEBEM apenas dois adolescentes em 2004.
Nossa cidade vive uma situação que
fere os dispositivos da lei nº. 8.069, de 13 de julho de 1990, o ECA (Estatuto
da Criança e do Adolescente), que muitas pessoas
mal informadas culpam
pelo caos que enfrentamos.
Na verdade, o ECA não elimina as
punições aos adolescentes infratores. Ele apenas as transforma nas chamadas “medidas sócio educativas” que são
variadas de acordo com a gravidade do
ato praticado. Assim, as mais leves que são a liberdade assistida (LA) e a prestação de serviços à comunidade (PSC)
o juiz da infância e da juventude as aplica e
encaminha ao cumprimento para o SEAME (Serviço
de Apoio ao Menor),
da Pastoral do Serviço
da Caridade (PASCA) da Diocese, que há 23 anos vem atendendo com esse programa
e hoje trabalha com 103 adolescentes.
As medidas sócio educativas da semi
liberdade (SL) e internação (I), (que representa privação da liberdade, que o juiz aplica para os atos de maior
gravidade, não podem
ser cumpridas em nossa cidade,
por não existirem aqui os programas exigidos
pelo ECA. Por isso,
os nossos adolescentes estão sendo encaminhados ao martírio e caminho sem saída da FEBEM.
Os adolescentes presos
aguardam sentença na Casa de Custódia, junto
ao Distrito Policial de Santa Terezinha, por determinação
do juiz.
O NAI não é uma unidade para
cumprimento das medidas socioeducativas aplicadas. É preciso entender que, para nossa cidade, já tentamos isso, com
audiências públicas na Câmara com presença do padre
salesiano Agnaldo, coordenador do
NAI de São Carlos. É preciso entender
também, que o NAI é um projeto de articulação entre os diversos
órgãos que atuam
desde o momento
que o adolescente é preso praticando o ato infracional, até o momento da
sentença aplicada pelo juiz. E esse processo torna-se
extremamente rápido (uma semana ou duas) enquanto que atualmente é muito demorado,
chegando a durar dois messes
ou até anos em alguns casos.
Enquanto o adolescente permanece no
NAI, ele passa pela sala da polícia, onde se
realiza o B.O. na presença
da família, vai para o Serviço Social,
o Ministério Público
(caso necessário), recebe
atendimento de saúde, através dos profissionais da Secretária da Saúde, passa pelo processo educacional com
estratégia curricular própria através da Secretaria de Educação, tem atendimento psicológico, local para atividades desportivas e, uma
vez por semana, o Juiz comparece em sua sala e julga os processos que estão prontos. Dada a sentença, ele precisa ser
encaminhado ao local onde deverá cumprir a medida socioeducativa aplicada.
O grande segredo do NAI está na
agilização do processo e enquanto o adolescente permanece no NAI ele fica na UAI (Unidade de Atendimento
Inicial) e após os primeiros atendimentos ele é transferido para a UIP (Unidade de Internação Provisória), juntamente com os demais que lá já estavam.
A semiliberdade lá em São Carlos, é
aplicada em uma chácara ampla, onde podem ser
recebidos até 15 adolescentes que têm trabalho
com a terra, artesanato profissionalizante, obrigatoriedade de ir
à escola e são acompanhados por uma equipe multidisciplinar com assistente social,
psicólogo, educadores e monitores. Neste programa é que se recupera a maioria dos adolescentes infratores. A medida de internação na UI (Unidade
de Internação) da FEBEM, se restringe à pouquíssimos casos,
como em 2004 com apenas dois
encaminhamentos.
O NAI é urgente em nossa cidade,
porém, será necessário criar e iniciar
o programa para a
aplicação da semi liberdade, que poderá ser desenvolvido por uma ONG em local adequado.
Sem isso, continuaremos com a sensação de impunidade, com a triste história da Casa de Custódia e suas rebeliões e enviando os adolescentes piracicabanos para a FEBEM, em São Paulo, até para aguardarem julgamento nas UIPs do Braz quando o juiz conseguir vaga.
N.E. : A Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor) foi transformada em Fundação CASA (Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente) em dezembro de 2006
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